Ondas de calor: gatilhos, quanto duram e o que funciona
O termostato do cérebro fica sensível. A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz, e já há remédio sem hormônio aprovado no Brasil.
A onda de calor, ou fogacho, é um calor súbito no rosto, no pescoço e no peito, com vermelhidão e suor, que dura de 1 a 5 minutos e às vezes termina em calafrio. À noite, vira suor noturno. Cerca de 3 em cada 4 mulheres têm calorões na transição.
O que acontece
O centro que regula a temperatura fica no hipotálamo, no cérebro. Com o estrogênio oscilando, um grupo de neurônios que usa a neurocinina B fica hiperativo e estreita a faixa de temperatura que o corpo tolera. Uma subida mínima já dispara a reação de esfriar: os vasos da pele se abrem e o suor começa.
Quanto duram
Mais do que se dizia. No estudo SWAN, que acompanhou mais de 3 mil mulheres, as ondas de calor duraram em média 7,4 anos. Quem começou a ter calorões ainda com a menstruação regular ou no início da transição teve, em média, mais de 11 anos de sintoma.
Gatilhos comuns
- Álcool.
- Pimenta e comida muito quente.
- Cafeína e bebida quente.
- Ambiente abafado e roupa justa ou sintética.
- Estresse e ansiedade.
- Cigarro, que também deixa os calorões mais fortes.
Os gatilhos mudam de uma mulher para outra. O diário de sintomas ajuda a descobrir os seus.
O que funciona
- Terapia hormonal. É o tratamento mais eficaz e alivia de 50% a 75% das mulheres. Veja Tratamentos.
- Fezolinetanto (Veoza). Remédio sem hormônio que bloqueia a neurocinina B no hipotálamo. A Anvisa aprovou em junho de 2026 para calorões moderados a fortes. Nos estudos, reduziu as ondas de calor mais que o placebo já nas primeiras semanas. Pede exames de fígado antes e nos primeiros meses de uso. Nos Estados Unidos, um remédio da mesma família, o elinzanetanto, foi aprovado em 2025.
- Antidepressivos em dose baixa, como paroxetina, escitalopram, venlafaxina e desvenlafaxina, e a gabapentina reduzem os calorões. São opção para quem não pode ou não quer hormônio, inclusive depois de câncer de mama. Paroxetina e fluoxetina interferem no tamoxifeno.
- Terapia cognitivo-comportamental e hipnose clínica diminuem o incômodo, e a hipnose também a frequência.
- Perder peso, quando há excesso, também ajuda.
Na alimentação
A evidência é mais fraca que a dos remédios. A soja tem resultados mistos: os estudos somados mostram redução pequena na frequência dos calorões, e um estudo com alimentação à base de vegetais e meia xícara de soja cozida por dia mostrou redução grande, mas com poucas participantes. Vale tentar, sem esperar o efeito de um remédio. O cardápio Ondas de calor junta soja, linhaça e leguminosas e tira os gatilhos.
O que não tem evidência
Cimicífuga (black cohosh), óleo de prímula, trevo-vermelho, ioga e respiração ritmada não reduziram as ondas de calor nos estudos de melhor qualidade. A cimicífuga ainda tem relatos de lesão no fígado. Hormônio "bioidêntico" manipulado também não é recomendado: a dose varia de um pote para outro e não há controle de qualidade.
Para ficar de olho
Ondas de calor frequentes e fortes estão associadas a mais risco de doença do coração. Não é motivo para medo: é motivo para cuidar de pressão, colesterol e glicose na consulta.
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Fontes
- Associação Brasileira de Climatério (Sobrac). Guia Sobrac Perimenopausa: a transição menopáusica na prática, 2025.
- Mary Claire Haver. A nova perimenopausa. Intrínseca, 2026.
- The Menopause Society. The 2023 nonhormone therapy position statement. Menopause, 2023.
- Avis NE et al. Duration of menopausal vasomotor symptoms over the menopause transition (SWAN). JAMA Internal Medicine, 2015.
- Barnard ND et al. The Women's Study for the Alleviation of Vasomotor Symptoms (WAVS). Menopause, 2023.
- Anvisa. Registro de Veoza (fezolinetanto), junho de 2026.